Sempre que me deparo com textos que citam gurus, sábios, magos e outras personagens, já penso que se trata de alguém escrevendo sobre uma das temporadas do Game of Thrones. Só que não pude resistir quando resolvi escrever sobre o artigo How to Solve The Cost Crisis In Health Care (Harvard Business Review, Setembro/2011) que trata sobre a crise na gestão de saúde e foi escrito por nada mais nada menos do que Robert S. Kaplan e Michael E. Porter.

Nesse excelente artigo, os autores nos brindam com uma visão estratégica dos sistemas de saúde e elegem a medição dos custos como um dos vilões dessa crise que vivemos (e viveremos). Começam afirmando que existe uma completa falta de entendimento sobre quanto custa para entregar “saúde” às pessoas e também sobre como estes custos se comparam com os desfechos obtidos (termo mais comumente utilizado para tratar de resultados em saúde).

Comentam que os participantes dos sistemas de saúde estão mais perdidos que cachorro que caiu do caminhão de mudança. Quem faz as políticas de saúde equivale custos aos pagamentos feitos aos provedores de saúde. Estes por usa vez apuram seus custos nos procedimentos, unidades e serviços não com base na real alocação de recursos utilizados para entregar saúde e sim no quanto são pagos para tal.

Existe uma frase que alguns dizem ser de Deming, outros de Churchill, do papa ou do Tiririca. Quem disse não importa, mas ela afirma que o que não é medido não pode ser gerenciado ou melhorado. Dado que existem problemas na interpretação dos custos, como os gestores podem realizar melhorias que tragam reduções de custo que sejam comprovadas e sustentáveis. Prova disso é o que vemos atualmente, onde limitações nas tabelas de preços trazem reduções marginais, além de levar a um custo maior do sistema como um todo e a piores desfechos. A lista de consequências nefastas é extensa e mudanças só serão efetivas quando endereçarem o problema fundamental: Como entregar melhores desfechos a um custo mais baixo?

Nossos gurus propõem usar a técnica TDABC (time-driven activity-based costing – medição de custos de atividade baseada no tempo) para gerar como solução um processo de medição de custos composto de 7 passos:

  1. Selecionar a condição médica
  2. Definir a cadeia de valor para entrega de saúde
  3. Desenvolver mapas de processo para cada atividade de entrega de saúde
  4. Obter estimativas de tempo para cada processo
  5. Estimar o custo dos recursos utilizados
  6. Estimar a capacidade de cada recurso e calcular o custo por unidade de tempo disponível
  7. Calcular o custo total para cuidar da condição médica definida

Com a aplicação desse processo de medição, surge a oportunidade de reduzir as variações na execução das atividades e na utilização de equipamentos, materiais e ferramentas. Facilita-se também a melhoria na alocação dos recursos físicos e humanos e a otimização da capacidade disponível nos provedores, muitas vezes com recursos subutilizados. Os tempos para tratamento das pessoas são reduzidos e todo o ciclo de atenção à saúde pode ser otimizado, com a eliminação de processos clínicos e administrativos, que muitas vezes são redundantes. Quantos agendamentos, recepções, registros realizamos quando precisamos ir em diversos provedores para um tratamento ortopédico por exemplo?

Os autores são taxativos em definir que a escalada nos custos totais da saúde só cessará com a redução nos valores pagos. Dentro do modelo atual de pagamentos, isso traz profundas implicações na qualidade e disponibilidade dos serviços de saúde. Como esse modelo está desconectado dos custos reais e desfechos desejados, os provedores e pagadores são desencorajados em relação ao aumento da eficácia de seus processos. Quem adivinhar o que eles propõem não vira “mulher do padre”: pagar pelo valor agregado à saúde da pessoa e não pela execução do serviço. O famoso VBHC – value-based healthcare.

Com certeza a mudança não é simples, mas deveria ser perseguida com “sangue nosóio” considerando que a crise só se agrava e que um sistema baseado no VBHC reduzirá e equilibrará os custos sem sacrifício dos desfechos desejados.

Alguém duvida dos gurus?

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