A CES é considerada a maior feira mundial de eletrônicos, realizada todo janeiro em Las Vegas (EUA). Focada inicialmente em hardware, a feira evoluiu para apresentar outras tecnologias inovadoras que estarão nas mãos e mentes dos consumidores ao redor do globo. E está se tornando também um dos maiores eventos de saúde no mundo. 

Diversos eventos acontecem em paralelo à feira, dentre eles o Digital Health Summit. Com uma cobertura massiva dos meios de comunicação, resolvemos fazer um resumo das notícias e discussões que surgiram durante os quatro dias do evento (09 a 12/01), com base nos provedores de notícias MobiHealthNews  (veja o original aqui) e The Medical Futurist (veja o original aqui).  

Grandes marcas falam sobre a consumerização da saúde 

A conclusão mais firme sobre o evento foi que a oferta de tecnologias focadas na saúde teve um salto astronômico neste ano, o que demonstra a aposta do mercado na mudança de comportamento das pessoas, cada vez mais preocupadas em gerenciar a sua própria saúde (o que é chamado de consumerização da saúde). Prova disso é que as grandes marcas, cuja atuação no mercado de saúde ficava no âmbito dos boatos, lançaram na CES2018 produtos ligados à saúde e bem-estar. 

A Johnson & Johnson, por exemplo, entende que a área da saúde está muitos anos atrás das demais e que é necessário incrementar a experiência de uso como um todo. Junto com a Nokia, indicaram a necessidade de se desenvolver wearables que sejam atrativos para os consumidores e sem barreiras para a adoção. Além disso, esses dispositivos precisam entregar insights tangíveis ao consumidor para que mudem comportamentos de forma consistente e sustentável. 

Na verdade, a consumerização vai além de produtos. A UnitedHealthCare e a Rally Health apresentaram como estão usando dados para criar serviços que facilitem o relacionamento das pessoas com os processos de saúde. A operadora de saúde citou como exemplo: 

  • Ferramentas que alertam automaticamente os pacientes quando escolhem provedores fora da rede credenciada e que sugerem opções de custo mais baixo. 
  • Novas formas de pagamento. 
  • Serviço de onboarding (capacitação introdutória) para empregadores de porte médio. 
  • Vídeos explanatórios sobre os benefícios dos diversos planos de saúde disponíveis. 

 

Iniciativas como estas que traduzem difíceis escolhas para os consumidores, são importantes pela ajuda no entendimento das opções e escolha de melhores comportamentos. 

Sob ponto de vista comercial, a tendência é olhar para as pessoas que oneram o sistema de saúde, porém dois terços das pessoas nem interagem com ele. Por isso, também é importante entender as necessidades dessas pessoas para facilitar a sua interação com o sistema.  

A Teladoc, fornecedora de serviços de telemedicina, enfatizou que todos os esforços devem ter no mínimo a premissa de manter os níveis de qualidade no atendimento, para que os indivíduos confiem que as soluções irão trazer resultados com base na sua experiência pessoal e não somente no marketing. 

Sensores e analytics preditivo 

Cada vez mais o monitoramento contínuo e os sensores domésticos ganham popularidade. Alguns desafios permanecem, como por exemplo a percepção das pessoas, principalmente idosos, de que esses dispositivos estão invadindo a sua privacidade. A experiência até o momento indica que os sensores em si não são considerados tão intrusivos, mas sim as ações decorrentes do monitoramento deles – uma ligação telefônica perguntando o motivo que o paciente não toma o remédio a dois dias, por exemplo. 

A introdução do monitoramento na rotina da pessoa é mais efetiva quando ela percebe claramente que receberá um benefício, como o fato de poder ficar em casa ao invés de precisar ir para um hospital ou asilo. E mesmo nas implantações bem-sucedidas, é muito comum surgirem barreiras. Pegando como exemplo os idosos… Inicialmente, eles acham que vão receber muitas instruções e não vão conseguir usar a tecnologia. Uma vez entendido, a preocupação deles é se vão bagunçar, fazer algo errado ou até quebrar os dispositivos. 

A utilização de sensores domésticos e outras formas de monitoramento contínuo como os wearables representam uma oportunidade clara para reagir -ou até se antecipar – às emergências médicas. Contudo, trabalhar com esses dados pode rapidamente se tornar um desafio em si mesmo. Cada vez mais os dados serão vitais, porém só poderão ser utilizados para tomada de decisão se forem corretamente gerenciadas e colocados nas mãos dos cuidadores e provedores de saúde. 

Novos avanços nos algoritmos de medição tornaram os sensores mais confiáveis, principalmente para os medidores cardíacos que precisam de uma acurácia maior se quiserem realmente ser considerados como fontes de dados fidedignos. Os sensores também estão menores e mais econômicos, melhorando a eficiência da bateria em aproximadamente 50%. 

A Samsung anunciou diversas parcerias técnicas para aprimoramento das funções de seus smartwatches, com a incorporação de monitoramento de idosos e de acionamento de emergências. 

Gestão e análise de dados 

Outro assunto bem discutido foi como os dados de saúde deveriam ser gerenciados e analisados. Considerando o cenário comumente encontrado de dados que não se conversam e uso de registros físicos (até máquinas de fax ainda são utilizadas), defendeu-se que a interoperabilidade deve ser uma prioridade para todos. 

É fundamental que seja dado foco nessa questão já que sua implementação é complexa. Nos EUA, mesmo com toda a regulamentação para possibilitar que o cidadão tenha acesso pleno aos seus registros médicos, ainda hoje isso não é possível. A previsão é que ainda esse ano os órgãos responsáveis publiquem APIs que facilitarão o acesso dos pacientes aos seus dados. 

Promessas do blockchain na saúde 

Em geral, os especialistas estão otimistas sobre o papel do blockchain na saúde, mas alertam que a tecnologia deve ser utilizada em aplicações que tenham um grande “fit”, geralmente quando ocorrem essas 3 condições: 

  1. Dados dinâmicos (atualização frequente); 
  1. Fragmentação da solução atual; 
  1. Alto risco de atividades maliciosas. 

A consultora Jaquie Finn, head de digital health na Cambridge Consultants indicou que as melhores aplicações de blockchain até o momento são aquelas projetadas para rastrear e prevenir a venda de medicamentos e equipamentos falsificados.  Outras aplicações envolvem a transferência de registros médicos e a geração automática de contratos (inteligentes) entre provedores e pagadores. 

O que se espera é a criação de uma fonte central com dados fidedignos para combater o alto custo e diferenças entre as ilhas de informação atualmente existentes. 

Ofertas focadas no cérebro ganham atenção 

Desde a abertura do evento, foram destacados os novos equipamentos e terapias que evidenciaram a restauração de nervos danificados, superação de enfermidades cognitivas e a otimização de atividades em cérebro saudáveis. 

Com as pessoas atualmente gastando mais e mais do seu tempo com informações e outros estímulos digitais, a humanidade está em uma “crise de cognição”, que afeta como as pessoas percebem, pensam, sentem e tomam decisões. É vital que os players na saúde reafirmem seu foco nas funções cerebrais e nas alternativas onde a tecnologia digital pode auxiliar na melhoria da saúde mental, bem-estar no longo prazo e na educação. 

Para superar o histórico de avaliações mentais pobres e a dependência de medicamentos, existe a opção de videogames especializados que podem desafiar o cérebro e mudá-lo para melhor. São terapias digitais que estão em processo de liberação pelo FDA (agência americana responsável por alimentos e medicamentos). 

Outras tecnologias focadas no cérebro também foram destacadas no evento:  

  • Aplicação do Google Glass para orientar crianças e adolescentes com distúrbios cognitivos, como autismo; 
  • Luvas inteligentes que ajudam na recuperação da mobilidade para vítimas de AVC (acidente vascular cerebral). 

 Assistentes de voz: o cavalo de Tróia para a saúde 

Milhões de casas americanas já possuem equipamentos de assistência baseada em comandos de voz, como por exemplo a Amazon Alexa e Google Assistant. Isso é considerado um cavalo de Tróia para a saúde, já que democratizaram o acesso às técnicas de aprendizagem de máquina, principalmente o reconhecimento de voz. Ambas plataformas possuem ambientes abertos que permitem a qualquer pessoa programar aplicações para elas. 

O uso desses dispositivos se expande porque suas interfaces com os usuários são diferenciadas pelo fato de serem rápidas, fáceis de aprender e navegar, além de oferecer uma tomada de decisão melhor contextualizada.  Estudos realizados em pacientes com diabetes e artrite indicaram que as interfaces de voz levam a maior aderência do paciente, melhor entendimento e inesperadamente, conexões emocionais genuínas. Algumas dicas para que as empresas implementem interfaces de voz em seus produtos: 

  • Inicie com questões simples; 
  • Modele a personalidade do(a) assistente de acordo com a pessoa da sua empresa que melhor se relaciona com o cliente; 
  • Programe respostas concisas, mas que não sejam muito compactas. 

As interfaces de voz tendem a trazer grandes benefícios terapêuticos e emocionais, desde que sejam construídas com uma abordagem com muito foco sobre o paciente e que os assistentes possam ter conversas que realmente colaborem com os pacientes, sob o risco dos usuários não se engajarem na utilização da voz como meio de acesso aos sistemas. 

Saúde digital e os opioides 

O uso abusivo de medicamentos opioides contra dor crônica se tornou um problema de saúde pública nos EUA. É consenso que não existe uma abordagem salvadora, já que é um problema complexo pela sua multidisciplinaridade (biologia, psicologia, sociologia). Dado as expectativas dos consumidores e a história do excesso nas prescrições, o padrão de prescrições precisa ser trabalhado junto ao médico, um desafio que a tecnologia pode ajudar a enfrentar. 

É necessário que o médico tenha acesso a uma plataforma de suporte a tomada de decisão que o permita responder rapidamente, através da possibilidade de consultar guias de referência para definir qual são o medicamento, momento e motivação mais adequados. 

Importante salientar que as intervenções nas prescrições de opioides não devem ficar restritas ao médico. O próprio paciente pode ser um agente potencial de correção, uma oportunidade disponível graças a natureza de pouco risco das terapias digitais e a crescente preocupação dentre a sociedade em geral sobre os abusos na utilização de opioides. 

Somente o fato de educar a população sobre os riscos e tratamentos alternativos já se mostra efetivo, uma vez que o paciente entende a importância do assunto e tomará a iniciativa para achar alternativas viáveis.  

O impacto da legislação na adoção de telemedicina 

Executivos das organizações de saúde defenderam que tanto a legislação quanto o uso da remuneração baseada em honorários têm uma influência negativa na adoção da telemedicina em alguns estados americanos. Esse modelo de remuneração não incentiva a telemedicina, uma vez que os profissionais de saúde somente são pagos se tiverem contato presencial com os pacientes. 

O sistema de saúde dos veteranos de guerra dos EUA, administrado pelo órgão Veteran Affairs possui independência para liderar inovações na prestação dos serviços de saúde. Foram os primeiros a adotar o prontuário eletrônico e facilitaram a adoção da telemedicina através de uma flexibilização das regras de licenciamento médico para essa prática. 

 Apanhado geral 

Numa “selva” com mais de 4.000 expositores e 170.000 participantes, algumas tendências estão mais concretas: 

  • As tecnologias para saúde digital invadiram o evento. Esse ano, a quantidade de lançamentos de dispositivos ligados a saúde é maior do que o acumulado dos anos anteriores. 
  • Os gigantes da tecnologia entraram de cabeça no mundo da saúde. 
  • Produtos de nicho estão cada vez mais comuns. 
  • Ainda foram pouquíssimas inovações disruptivas, que são tecnologicamente relevantes, disponíveis a um preço justo e que foram validadas clinicamente. 
  • O ponto-de-atenção está cada vez mais próximo do paciente, com a disponibilidade de wearables cada vez mais completos, confiáveis e baratos. 

 

A conclusão final é que as tecnologias para a saúde estão cada vez mais disponíveis para o público em geral, o que reforça o movimento da consumerização da saúde e resulta em maior poder do paciente na relação com os demais players – profissionais, provedores e operadoras de saúde. 

A ver o que a CES2019 terá para nos surpreender. 

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